Exemplos de Riscos Psicossociais por Setor: Indústria, Saúde, Varejo, Escritório e Logística

TL;DR: Os exemplos de riscos psicossociais mais frequentes são sobrecarga de trabalho, ritmo imposto por máquina ou sistema, jornada e escala desgastantes, baixo controle sobre a própria tarefa, metas inatingíveis, assédio moral e sexual, violência de terceiros e falta de clareza de papel. O que muda de um setor para outro não é a lista de fatores, e sim qual fator predomina e qual é a fonte geradora concreta — e é isso que precisa estar no inventário do PGR, setor por setor.

Desde que a Portaria MTE 1.419/2024 trouxe os riscos psicossociais para dentro do GRO/PGR, e com a fiscalização punitiva em vigor desde 26 de maio de 2026, o inventário genérico virou o principal gerador de autuação. Escrever “estresse ocupacional” em uma linha não é inventário.

Os exemplos abaixo servem como calibragem: eles mostram o nível de detalhe que um inventário defensável tem. Use-os como ponto de partida, nunca como cópia — o seu inventário precisa refletir a sua operação, com a sua evidência.

Como ler estes exemplos

Cada linha de inventário precisa amarrar quatro coisas: fator de risco → fonte geradora concreta → evidência → medida na hierarquia certa. Se qualquer uma dessas quatro faltar, a linha não sustenta uma fiscalização. O método completo está em riscos psicossociais no PGR.

Indústria e manufatura

Fator de riscoFonte geradora típicaSinais de alerta
Ritmo imposto por máquinaLinha de produção com cadência fixa, sem pulmãoErros no fim do turno, pausas não gozadas
Trabalho em turnos e noturnoEscala de revezamento com troca rápidaFadiga, uso de estimulantes, absenteísmo às segundas
Trabalho monótono e repetitivoPosto sem rodízio de funçãoQueda de atenção, quase-acidentes
Pressão por produtividadeMeta de peças/hora atrelada a bônusOcultação de falhas, subnotificação de acidentes
Insegurança no empregoCiclos de demissão coletivaQueda de reporte de risco, presenteísmo

Medidas típicas: revisar cadência com estudo de carga, implantar rodízio de postos, revisar escala de turnos com critério ergonômico, desatrelar bônus de indicadores que estimulam subnotificação.

Saúde e hospitais

O setor de saúde concentra os fatores de maior severidade, com destaque para demanda emocional e violência de terceiros.

Fator de riscoFonte geradora típicaSinais de alerta
Demanda emocional intensaContato contínuo com sofrimento e morteEsgotamento, distanciamento afetivo do paciente
Violência de terceirosAgressão verbal e física por pacientes e acompanhantesRegistros de ocorrência, pedidos de transferência de setor
Sobrecarga e subdimensionamentoEscala com relação profissional/leito insuficienteHoras extras crônicas, dobras de plantão
Plantões longos e noturnosEscalas 12×36 mal distribuídasFadiga acumulada, erro assistencial
Assédio moral verticalHierarquia rígida entre categoriasRotatividade concentrada em uma chefia

Medidas típicas: protocolo de resposta a agressão, redimensionamento de escala, apoio pós-evento crítico (debriefing), formação de lideranças assistenciais, canal de denúncias com fluxo específico para o corpo clínico. Sobre esgotamento, veja o que é burnout.

Varejo e atendimento ao público

Fator de riscoFonte geradora típicaSinais de alerta
Meta individual agressivaRanking diário exposto publicamenteCompetição hostil, choro no expediente, pedidos de desligamento
Violência de terceirosAssalto, cliente agressivoAfastamentos pós-evento, medo de voltar ao posto
Jornada irregularEscala divulgada com pouca antecedênciaConflito trabalho-família, faltas
Baixo controleRoteiro rígido de atendimentoSensação de despersonalização
Assédio de clientesAusência de política de proteção ao trabalhadorSubnotificação, normalização do abuso

Medidas típicas: substituir ranking público por metas de equipe, política formal que autoriza o trabalhador a encerrar atendimento abusivo, antecedência mínima na divulgação de escala, treinamento de gestores de loja.

Escritório, tecnologia e serviços administrativos

Fator de riscoFonte geradora típicaSinais de alerta
HiperconexãoMensagens e cobranças fora do expedienteRespostas em horários noturnos nos registros
Prazos irreaisPlanejamento sem estimativa técnicaHoras extras recorrentes, entregas em plantão
Ambiguidade de papelEstrutura matricial com dois gestoresRetrabalho, conflito entre áreas
Mudança organizacional mal comunicadaReestruturação anunciada sem contextoBoatos, queda de engajamento, pedidos de demissão
Isolamento no trabalho remotoAusência de rotina de contato de equipeDesconexão, dificuldade de identificar sofrimento
Assédio em canais digitaisGrupos informais sem moderaçãoPrints em denúncias, saídas silenciosas de grupos

Medidas típicas: política de desconexão com regra clara sobre mensagens fora do expediente, estimativa técnica obrigatória antes de compromisso de prazo, matriz de responsabilidades documentada, ritual de comunicação em mudanças, rotina de contato ativo com remotos.

Logística, transporte e entrega

Fator de riscoFonte geradora típicaSinais de alerta
Pressão por tempo de entregaRoteirização com janela apertadaExcesso de velocidade, refeição no veículo
Jornada extensa e tempo de esperaFilas de carga e descarga não computadasFadiga, reclamações de jornada
Trabalho isoladoLongas rotas sem contatoDificuldade de acionar ajuda, adoecimento silencioso
Violência urbanaRotas de risco, roubo de cargaAfastamento por estresse pós-traumático
Monitoramento eletrônico excessivoTelemetria usada como puniçãoSensação de vigilância, medo de reportar problema

Medidas típicas: revisar roteirização com base em tempo real de percurso, computar e reduzir tempo de espera, protocolo de rota de risco, uso de telemetria com finalidade preventiva declarada, contato ativo com motoristas em rota longa.

Fatores que atravessam todos os setores

Independentemente do ramo, quatro fatores aparecem em praticamente todo inventário bem-feito:

  1. Assédio moral e sexual. É risco psicossocial e obrigação legal específica desde a Lei 14.457/2022. Veja o que é assédio moral no trabalho.
  2. Liderança despreparada. Boa parte do risco psicossocial é gerada na forma como o gestor imediato distribui carga, comunica meta e resolve conflito.
  3. Falta de reconhecimento. Desequilíbrio entre esforço e recompensa é um dos preditores mais consistentes de adoecimento.
  4. Comunicação de mudança. Reestruturação, fusão e corte anunciados sem contexto produzem insegurança prolongada.

Perguntas frequentes sobre exemplos de riscos psicossociais

Posso copiar esta lista para o meu PGR?

Não. Esta lista serve para calibrar o olhar. O inventário precisa nomear a fonte geradora real da sua operação, o número de expostos e a evidência que sustenta a classificação. Inventário copiado é justamente o que a fiscalização identifica como PGR genérico.

Escritório tem risco psicossocial mesmo sem risco físico?

Tem, e a ausência de risco físico não dispensa a avaliação psicossocial. Prazos irreais, hiperconexão, ambiguidade de papel e assédio ocorrem com frequência em ambientes administrativos, e são fatores de risco reconhecidos.

Trabalho remoto entra no PGR?

Sim. O trabalho remoto é uma forma de organização do trabalho e produz fatores próprios — isolamento, hiperconexão, dificuldade de separar jornada. Devem ser inventariados como qualquer outro fator.

Como sei se um fator é risco na minha empresa ou só reclamação isolada?

Pelo cruzamento de fontes. Um fator vira risco inventariável quando aparece de forma consistente no instrumento de avaliação e é corroborado por indicadores (absenteísmo, rotatividade, afastamentos, denúncias) ou por relatos convergentes em grupo focal.

Terceirizados entram no meu inventário?

Os riscos do ambiente que você controla afetam quem trabalha nele. A prática recomendada é mapear os fatores do posto de trabalho e alinhar formalmente com a empresa contratada as medidas que cabem a cada parte, com registro da comunicação.

Qual setor tem mais risco psicossocial?

Não existe ranking oficial aplicável a todas as empresas. O que a literatura mostra é maior concentração de demanda emocional e violência de terceiros em saúde, segurança e atendimento ao público, e maior concentração de pressão por tempo em logística e teleatendimento. Ainda assim, a avaliação tem que ser da sua operação.

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Por Guilherme Mota, Especialista em Segurança do Trabalho, consultor em CIPA e NR-1. Atualizado em julho de 2026.

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